A invasão das fintech e o caminho por vir para as insurtech

“O futuro do setor financeiro não será marcado pelo dinheiro. Os grandes protagonistas serão a inovação e o atendimento ao cliente” Spiros Margaris, especialista em bancos e fintech[i]

A revolução digital pela qual estamos passando atualmente mudou a maioria dos paradigmas da maioria dos aspectos de nossas vidas. Esta é uma situação inevitável, mas sabendo entendê-la pode representar uma série de melhorias na produtividade e na qualidade de vida das pessoas.

O mundo dos negócios tem sido o principal impacto em toda a história recente. As novas tecnologias vieram para repensar uma série de questões, desde novos consumidores com expectativas diferentes, até novos competidores que pensam em outras formas de fazer negócios a partir da invasão e da inovação.

Dentro deste novo cenário, os serviços financeiros têm o comando. Nos últimos anos surgiu um nome que parece materializar a nova onda empresarial financeira associada com a tecnologia e a criatividade: as fintech.

O desenvolvimento de plataformas digitais tem permitido o surgimento de uma constelação de empresas startups, novos negócios independentes, que surgiram a partir da internet, com capital de risco e enorme flexibilização. As tais startups têm chamado a atenção de uma boa parte dos mercados e também das grandes corporações, que fazem alianças com elas e inclusive as adquirem.

As fintech têm essa concepção, especificamente no setor de serviços financeiros, e têm revolucionado de tal forma que estão se tornando alternativas reais para os bancos tradicionais devido suas capacidades de flexibilização, especialização e serviços contínuos. O setor bancário tem se debatido entre vê-las como uma ameaça ou como um agente com quem tem que negociar. A tendência vai até este último.

Da consolidação das fintech surge um novo movimento: as insurtech. Praticamente a mesma coisa, porém dirigida para o setor de seguros. Entretanto, estas ainda têm um longo caminho para percorrer até chegar ao nível em que as primeiras se posicionaram dentro de seus segmentos. Como veremos mais adiante, as particularidades do mundo financeiro e de seguros são diferentes, então a evolução em cada um deles tem nuances próprias.

A revolução está aí, mas como tudo muda tem que se atrever e se adaptar às novas realidades, assim comenta Gabriel Lázaro, Vice Presidente da Área Digital da Chubb América Latina: “qualquer ser humano, como a própria indústria, tende a defender o que sabe fazer. O dilema é complicado, trata-se de uma conscientização do momento em que as coisas estão se transformando, que precisa mudar radicalmente o rumo , onde talvez se perca algo a curto prazo, mas que ganhará muito mais no médio e longo prazo.”[ii]


Essa febre chamada fintech

Nos últimos cinco anos o vocabulário do mundo financeiro mudou. Surgiu um novo código que tem como sua primeira expressão a palavra fintech.

Este vocábulo, surgido da expressão financial technology, que seria algo como tecnologia financeira, descreve uma onda de novas empresas que surgiram a partir da internet e das tecnologias da informação, que oferecem serviços financeiros que antes somente os bancos ofereciam, com um amplo leque de ofertas sob medida para o consumidor, tudo isto com menos estrutura de um banco tradicional e sem a padronização de muitos dos produtos corporativos. Além disso, com o valor agregado de um serviço 24 horas através de celulares.

As fintech são em essência entidades tecnológicas que analisam o setor financeiro em busca de problemas apresentados para proporem soluções que modifiquem a estrutura. Ou seja, não nascem como entidades financeiras que escolhem a plataforma digital para operar, mas sim o contrário.

As principais áreas que estão conquistando são: pagamentos e transferências, banco móvel, negociação financeira, mercados de commodities, empréstimos, financiamento coletivo (crowdfunding), portfólios digitais, moedas virtuais (como o bitcoin), serviços de assessoria e banco de varejo, entre outros.

Os clientes das fintech podem entrar em duas categorias principais:[iii]

  • B2B (business to business): empresas que oferecem serviços financeiros, que podem ser corretores, assessores, gestores de ativos, corporações e PME’s.
  • B2C (business to costumer): PME’s em busca de serviços alternativos de bancos ou fontes de capital e consumidores.

Segundo a consultoria Accenture, entre 2008 e 2013 o investimento global em fintech triplicou, passando de 930 milhões de dólares para cerca de 3 bilhões. A tendência continua em alta, estima-se que para 2018 alcançará um investimento de 8 bilhões de dólares. [iv]

Se as novas tecnologias estão aí para todos, o que faz com que estas novas startups estejam conquistando tanta participação de mercado? Para Gabriel Lázaro, da Chubb América Latina, tem a ver com duas formas que existem para acessar este ambiente: [v] por um lado estão as grandes empresas, que consolidaram seus capitais econômicos e corporativos através do tempo, criando uma grande plataforma de trabalho, de organização, de metodologia e operação. E, por outro lado, surgem estas novas empresas que não carregam nenhum tipo de estrutura empresarial, operacional e, inclusive, cultural. Têm essa vantagem na hora de apresentam seu estreito funcionamento com a tecnologia.

No entanto, a diferença das empresas tradicionais, seu nível de capitalização, faturamento e penetração, é relativamente baixo. “Há pontos onde se tocam, outros onde se distanciam, mas em geral não são substitutivas e sim complementares”, conclui Lázaro.

Os bancos a entenderam e suas estratégias tendem a colaborar com as fintech, nas palavras de Carlos Torres Villa, Conselheiro do BBVA: “Alianças estratégicas”. [vi]


A América Latina se contagia

“A revolução fintech chegou na América Latina para ficar. Cabe a nós decidir como vamos adotá-la de forma que se adapte aos nossos interesses e necessidades, já que se trata de um elemento fundamental para o desenvolvimento da economia digital e de uma área de vital importância para a nossa região”, assinala Juan Antonio Ketterer, chefe da Divisão de Conectividade, Mercados e Finanças do Bando Interamericano de Desenvolvimento (BID).[vii]

A América Latina se junta à invasão de empresas fintech que surgem por todo o mundo. Segundo estudo patrocinado pelo BID, 60% destas empresas, que operam hoje em dia em toda a região, surgiram entre 2014 e 2016.[viii]

O mesmo estudo estima que 230 delas operam no Brasil, 180 no México, 84 na Colômbia, 72 na Argentina e 65 no Chile, para mencionar os países com maior penetração.

A região latino-americana não está no nível financeiro e econômico que outras regiões do mundo. Tal desvantagem pode estar se transformando em uma vantagem para estas jovens empresas, já que o baixo nível de bancarização, de acesso a serviços financeiros e instrumentos de crédito, pode ir se amortizando com estruturas de serviços mais flexíveis e imediatos. Se somarmos o fato de que o acesso à internet tem crescido de forma notável (a CEPAL estima que 54,4% dos latino-americanos usaram internet em 2015; 20 pontos percentuais acima do número de 2010) [ix] nos encontramos com as condições ideais para que as novas tecnologias sejam um fator determinante de desenvolvimento.

A exclusão financeira na América Latina é estimada em 49%,[x] se consideramos apenas ter uma conta bancária. Este número aumenta se consideramos o uso de instrumentos de crédito, poupança ou seguros.

Em relação a isto, Juan Antonio Ketterer, do Bando Interamericano de Desenvolvimento conclui: “A reconfiguração da indústria de serviços financeiros a partir da invasão das fintech provavelmente contribuirá muito para reduzir a brecha de financiamento que afeta o setor produtivo da região”.[xi]


Das fintech às insurtech

Tomando como referência o nascimento e a evolução das fintech, por que não criar startups que funcionem de forma similar direcionadas aos seguros? Ou seja, Insurance Technology: Insurtech (tecnologia em seguros).

A invasão da tecnologia no mundo dos seguros tem antecedentes similares ao ocorrido no mundo das finanças: uma mudança de mentalidade das pessoas associada à evolução tecnológica; a necessidade de segurar não apenas objetos, como também estilos de vida; e a chegada de modelos econômicos diferenciados, como a economia colaborativa. [xii]

Um pesquisa realizada pela consultoria Genesys identificou que 47% dos segurados gostariam de ter mais interação com as seguradoras, e que estas ofereçam mais canais digitais. Somente 29% dos segurados estão satisfeitos com os serviços que recebem. Parte considerável do descontentamento está concentrado nas tecnologias digitais disponíveis. [xiii]

As insurtech são a resposta para uma situação como esta? Tem que ter precaução.

Primeiro, tem que partir do fato de que os seguros têm características diferentes dos produtos financeiros, não se pode fazer uma comparação equivalente entre dois instrumentos que buscam solucionar coisas diferentes. O seguro tem maior complexidade quanto instrumento em si, suas variantes, necessidades a cobrir e nichos de mercado. Tem uma menor penetração nos consumidores e sua legislação contempla aspectos diferentes ao do setor financeiro.

Isso pode explicar porque existe uma grande diferença entre o desenvolvimento das fintech e das insurtech. As primeiras já podem se considerar entidades financeiras autônomas, ainda que em muitos casos trabalhem com o banco. As segundas funcionam como serviços complementares, ou seja, portais onde são feitas comparações de características, preços e coberturas para que o usuário encontre a melhor opção dos produtos disponíveis das seguradoras. Mas não se posicionam como seguradoras, em termos gerais.

Tem a seu favor o elemento tecnológico, movem-se no mundo virtual com naturalidade, são parte desse ecossistema, e oferecem a seus clientes as virtudes do mesmo, como a personalização do serviço e a disponibilidade constante.

Por outro lado, as seguradoras cada dia integram mais a tecnologia dentro de seus sistemas, e a tendência é essa, sem dúvida são grandes corporações que gerenciam uma diversidade de nichos e estruturas, o que faz com que a colaboração com as novas insurtech que estão surgindo seja uma estratégia que pode potencializar sua presença na oferta digital.

Gabriel Lázaro, da Chubb América Latina, comentou a respeito: “Trabalhamos com insurtech para melhorar o que já temos. Nos associamos a elas e buscamos a forma de agregar valor”. [xiv]

A América Latina está um passo atrás nesta mudança de paradigma em relação à Europa e América do Norte, principalmente porque a penetração do seguro é mais baixa. Uma startup é um projeto especulativo, um investimento de risco, pois diante de um mercado menos consolidado existe maior nervosismo para o capital.

Na opinião de Lázaro, há propostas interessantes na região, mas ainda são em termos de “somatórias” mais que alternativas, ou seja, agregam valor aos produtos já existentes, mais que inovar em novos produtos e coberturas.

São modelos de negócio que estão sendo provados, há muita incerteza ainda. Não é um modelo único, existem vários e não sabemos qual será o que conseguirá seduzir o consumidor de tal forma que, em vez de buscar um corretor ou uma seguradora online, vai preferir recorrer a uma insurtech.


O consumidor está aí

“O consumidor está pronto, estamos vendo ele, passa mais tempo no facebook que vendo a televisão. O consumidor está comprando em aplicativos com seu celular. O setor de seguros se dá conta que as coisas têm que mudar e já está experimentando. Vai ser muito rápido”, conclui Gabriel Lázaro.

Tanto a indústria seguradora como as startups têm à frente um desafio de um consumidor que pouco tem a ver com o de apenas uns anos atrás. As insurtech não podem ficar apenas no ativo da tecnologia e sim entender as particularidades do que é o seguro e a função que tem para o consumidor. Do mesmo modo que a indústria não pode ficar apenas com seu conhecimento do produto e o mercado, mais sim deve explorar as novas plataformas que a tecnologia disponibiliza.

Por enquanto o que se vê é um clima de cooperação que pode beneficiar todas as partes envolvidas.


[i] Redação. ¿Cuál es el futuro de las fintech en Latinoamérica? Commercient. Junho de 2017.
[ii] Entrevista com Gabriel Lázaro, Vice presidente da Área Digital da Chubb América Latina. Junho, 2017.
[iii] Redação. ¿Qué es y qué significa fintech? OroyFinanzas.com. Marzo 2015.
[iv] Íbidem.
[v] Entrevista com Gabriel Lázaro, Vice presidente da Área Digital da Chubb América Latina. Junho, 2017.
[vi] Revolución Fintech. BBVA Innovation Center. Abril, 2016.
[vii] BID y Finnovista. Innovaciones que no sabías que eran de América Latina. Banco Interamericano de Desarrollo. 2017.
[viii]Íbidem.
[ix] CEPAL. Estado de la banda ancha en América Latina y el Caribe. CEPAL. 2016
[x] Global Index Database 2016. Banco Mundial.
[xi] BID e Finnovista. Innovaciones que no sabías que eran de América Latina. Banco Interamericano de Desarrollo. 2017.
[xii] Raúl Masa. ¿Qué es el Insurtech? Revista Sabemos Digital. Abril, 2016
[xiii] Wagner Andre. Insurtechs innovan el mercado asegurador de América Latina. Abril, 2017.
[xiv] Entrevista com Gabriel Lázaro, Vice presidente da Área Digital da Chubb América Latina. Junho, 2017.